Encerramento Técnico e Pós-Operação de Aterros: O Passivo Invisível Que Municípios Ignoram

aterros sanitários

O encerramento de lixões foi uma das grandes batalhas da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Embora ainda existam passivos significativos no Brasil, o debate público costuma se limitar à abertura ou à operação de aterros sanitários — mas raramente aborda o tema mais negligenciado da gestão de resíduos: o encerramento técnico e a pós-operação dos aterros.

Essa fase, que pode durar décadas, envolve obrigações ambientais, monitoramento contínuo, riscos jurídicos e custos que muitos municípios simplesmente não preveem. O resultado é a formação de um passivo invisível, mas extremamente oneroso, que pode comprometer finanças públicas, saúde ambiental e segurança da população.

Este artigo traz uma análise inédita e prática sobre o que acontece depois que um aterro “fecha” — e por que o encerramento técnico deve ser tratado como uma etapa estratégica da política de resíduos.

1. Encerramento físico x encerramento técnico: a diferença que quase ninguém conhece

Quando um aterro atinge sua capacidade, a primeira imagem que muitos gestores têm é a de “colocar terra por cima e fechar”.
Isso é apenas o encerramento físico.

O encerramento técnico, por outro lado, é um processo muito mais complexo e envolve:

  • engenharia especializada
  • cercamento e drenagem
  • camada de cobertura final
  • sistemas de drenagem de chorume
  • captação e queima ou aproveitamento de biogás
  • monitoramento geotécnico
  • monitoramento hidrogeológico
  • relatórios periódicos
  • planos de uso futuro

Ele marca o início da fase mais longa da vida de um aterro: a pós-operação, que pode durar entre 20 e 50 anos.

2. Normas ABNT e exigências ambientais na pós-operação

A legislação brasileira estabelece critérios importantes:

  • ABNT NBR 13896
  • ABNT NBR 8419
  • Resoluções CONAMA diversas
  • licenciamentos estaduais específicos

Entre as exigências:

  • monitoramento trimestral de água subterrânea
  • monitoramento de gases e riscos de explosão
  • estabilidade de taludes e recalques
  • qualidade do chorume remanescente
  • relatórios auditáveis enviados ao órgão ambiental
  • plano de encerramento aprovado com antecedência

Muitos municípios desconhecem que o encerramento técnico precisa ser aprovado ANTES do fim da operação, criando risco de autuação e improbidade.

3. O passivo invisível: custos que ninguém vê, mas todos pagarão

Os custos mais significativos de um aterro surgem depois do fechamento. Entre eles:

  • operação contínua do sistema de drenagem de chorume
  • tratamento de chorume por décadas
  • manutenção da drenagem pluvial
  • recalques e movimentos de massa
  • captação e queima/uso de biogás
  • monitoramentos geofísicos e piezométricos
  • restauração vegetal
  • segurança perimetral
  • controle de invasões

Em aterros mal construídos ou mal encerrados, esses custos podem superar os custos da operação ativa.

4. Riscos jurídicos e de responsabilidade civil

Sem encerramento técnico adequado, os riscos são altos:

  • responsabilidade civil objetiva por danos ambientais
  • responsabilidade administrativa
  • responsabilidade penal de gestores
  • ações civis públicas
  • termos de ajustamento de conduta
  • regressão de passivos para prefeitos
  • bloqueios judiciais de verbas municipais
Em concessões e PPPs, a falta de clareza contratual gera disputa sobre quem paga o quê após o encerramento.

5. Financiamento da pós-operação: o ponto cego das políticas municipais

A maioria dos municípios não prevê:

  • fundos de reserva
  • seguros ambientais
  • lastro financeiro para longo prazo
  • modelagem em contratos de prestação de serviço
  • vinculação tarifária para tratamento de chorume
  • provisões contábeis

Resultado: quando o aterro fecha, não há dinheiro para operá-lo — e o risco ambiental dispara.

Municípios que usam PPPs e concessões bem estruturadas conseguem mitigar grande parte do passivo, distribuindo responsabilidades ao longo do ciclo.

6. Oportunidades na pós-operação: energia, carbono e requalificação urbana

Se bem planejada, a pós-operação pode gerar benefícios:

  • aproveitamento energético do biogás para geração elétrica ou biometano
  • projetos de crédito de carbono
  • requalificação de áreas
  • implantação de parques ou áreas de lazer
  • reutilização controlada para empreendimentos de baixa carga

Exemplos internacionais mostram aterros transformados em:

  • campos de golfe
  • parques solares
  • parques circulares
  • áreas de pesquisa ambiental
Tudo depende do encerramento técnico adequado.

7. A importância de um plano de encerramento desde o início da operação

O encerramento técnico não começa no fim, mas no início da vida útil do aterro.

Um plano robusto inclui:

  • modelagem de custos de longo prazo
  • reserva técnica financeira
  • projeção de emissões futuras
  • escolha de tecnologias mais duráveis
  • drenagem menos onerosa
  • cobertura final de melhor engenharia
  • planejamento de uso futuro da área

Políticas de resíduos modernas integram operação, encerramento e pós-operação na mesma estratégia.

O encerramento técnico e a pós-operação de aterros são dimensões essenciais da política de resíduos que permanecem invisíveis para grande parte da sociedade — e até para muitos gestores. Ignorar essa etapa é criar um passivo ambiental, jurídico e financeiro com duração de décadas.

É preciso encarar o aterro sanitário como aquilo que realmente é: uma infraestrutura complexa que continua demandando atenção mesmo depois de encerrada sua operação.

Antecipar riscos, planejar financeiramente e adotar critérios técnicos rigorosos é fundamental para garantir segurança jurídica, proteção ambiental e continuidade da política pública de resíduos no Brasil.

Fabricio Soler — Professor e advogado especialista em Direito dos Resíduos, Direito Ambiental e ESG